quarta-feira, 12 de junho de 2013

odiado dia dos Namorados

Hoje é esse odiado dia: o dia dos namorados! É como se fosse uma data em que o universo conspira para, naturalmente, me deixar de mal humor. E de forma certeira já acordo mal humorada sem qualquer razão aparente, até eu me situar e descobrir que dia é.

E, para completar, acordo mais uma vez inutilmente. Já é a quinta entrevista no ano e nada de conseguir um trabalho descente. E me diziam que ter o diploma universitário já me abriria as portas.

Rá! O mundo real te prega uma bela peça. Agora sou Bacharel em Jornalismo, não preciso dizer onde me formei, eu sei onde é e isso me basta. Era uma boa universidade, me ajudou a acertar meu rumo. Mas, pra quem não nasceu no berço de ouro, estudar tem seus sacrifícios.

Se você tem pais bem posicionados e que puderam ou podem bancar uma instituição de ensino (seja do médio ou do superior), sua única obrigação imediata é estudar, e muito. Mas se, como eu, não teve a sorte de ir para as escolas particulares e precisou ralar nas escolas públicas brasileiras, tendo consciência que jamais seria capaz de entrar em uma universidade pública (já que essa só recebe aqueles que aprenderam com o ensino elevado da particular) tem duas opções: se mata em um cursinho (que vai precisar pagar pra ter um curso excelente) ou se arrisca com as particulares.

E como já falei, se seus pais não podem bancar a particular, quem você acha que tem que correr atrás?

Independente da sua escolha, você vai precisar trabalhar e muito. Eu, já que ia ter que pagar mesmo, optei pela instituição particular. Onde seria mais interessante começar estudando o que me interessa e, assim que possível, começar estagiando na área.

Pra pagar a faculdade, encaramos qualquer trabalho que aparece. E lá estava eu trabalhando na recepção de uma escola (não muito conhecida), mas que me pagava o suficiente para poder bancar as mensalidades. Com o pensamento de que quando arrumasse estágio já entraria na área e poderia deixar esse emprego.

Rá! Não importa se é estágio ou emprego: pra trabalhar precisa de experiência e pra ter experiência, você precisava ter trabalhado. Resumindo a ópera, nos meus 7 anos de curso trabalhei na mesma escola por 6 anos. No último ano, tive um problema com um superior que me dispensou. Não fiquei lá muito brava, já que tinha um TCC muito complexo pra fazer. Estava com o seguro, tinha verba pra bancar as eventualidades e muito o que fazer.

Enfim me formei, tenho o diploma na mão, mas só me falta o trabalho. E cá estou eu, voltando de mais uma entrevista fracassada (culpa da falta de experiência novamente).

Moro num apartamento simples e já estou voltando pra lá, comer muito, sofrer e desmanchar em lágrimas. Afinal, não importa quão forte se seja, esse dia naturalmente me derruba, adicionando uma entrevista fracassada então? Rá! Não sei como ainda não estou chorando.

Oba! O elevador deu problema outra vez, lá vou eu subir 8 andares pela escada (não que eu não goste de escadas, até prefiro, mas vai fazer isso quando está de mal com a vida).

Pronto! Ultimo lance, iupi! Só passar por essa porta e olhar pra minha, encontrar a chave e...

O que é isso? Jogaram lixo na minha porta de novo?

Não... Espera. Hum, é um daqueles biscoitinhos da sorte chinês. E não parece pisado nem nada, bom... O que não mata engorda. Deixa abrir isso. E vamos ler a sorte: "Vá até a catedral da Sé, e fale com o mendigo nas escadas.".

O que? Mas que sorte mais doida. Eu vou é entrar em casa ficar sozinha e me autodepreciar até...

Oh! Quer saber do que mais? Não vou me entregar a essa depressão não. Vou é ir até lá. Mesmo isso sendo muito estranho. Vai ser bem melhor do que ficar em casa sem fazer nada. Só vou mudar essa roupa.

Pronto! Agora estou bem melhor. Essa minha bota é ótima. Combina muito bem com essa minha calça jeans, e claro essa camisa azul que tanto gosto. Só colocar essa meu lindo óculos escuros, prender meu cabelo para trás assim... Perfeito!

Ah, não posso esquecer a bolsa. Claro que vai ser essa mesmo! Minha favorita. E vamos a caçada!

Bom, pra quem conhece São Paulo, pegar metrô não é fácil, mas, quando já não é horário de pico, é até agradável e rápido. Mal saí de minha casa, e logo cheguei na Praça da Sé, belíssima mesmo com os visíveis problemas sociais, não que os moradores de rua sejam problemas, e sim a nossa falta de humanidade de tratar esse problema como se fosse natural.

E aqui estou, diante da Catedral e sem dificuldades identifico o mendigo. É o único sentado nas escadas.

- Bom dia.

Meio atônito ele me responde: - Bom dia.

- Sei que isso parece estranho, mas... - vamos dizer e ver no que dá não é? - me pediram pra procurar pelo senhor aqui.

- Ah... Então é você a moça? Pois bem, me falaram pra te dizer que não é aqui que termina. Vai ter que ir até a São Bento falar com um pipoqueiro.

- Hã? Isso já está indo longe de mais. Mas, fazer o que. - vasculhando minha bolsa, cadê aquela moeda... Achei - Toma moço, é pouco mais já ajuda. Obrigada.

- Obrigado mocinha e boa sorte!

Boa sorte? Eu já havia estranhado a forma desse mendigo falar, mas me deseja boa sorte? Então tá.

Se você já andou pelas redondezas do centro sabe, um passo e já mudou de bairro. Depois de alguns minutos já estou na São Bento, no mosteiro São Bento em frente a estação. E ali esta o pipoqueiro.

- Com licença...

- Ah, a moça bonita! - ele me interrompe. - Disseram que viria me ver... Bom, bom. Seguinte princesa, vai ter que ir lá na igrejinha da Ifigênia. Um camarada meu vende relógio ali, só perguntar onde vai ter que ir, tá ligado?

- Ok então, né? De qualquer forma obrigada.

Sujeito estranho. Nem me deixou falar. Me lembrou um apresentador ai. Mas, vamos lá né? Ainda bem que gosto de andar se não já estaria nervosa.

Olha o muambeiro dos relógios ali. Nem vou dar brecha pra não ser feita de palhaça:

- Escuta aqui! Já estou andando faz um tempo e só estou sendo empurrada. Ninguém me fala a razão e...

- Calma, calma! Você precisa de mais paciência não é? Às vezes nem tudo é tão fácil de entender e tem que ir até o fim.


Não é que ele tem razão?

- É verdade. Me desculpe. - sorrio - Até que essa caça ao tesouros está divertida. Ajudou a melhorar meu animo. Então meu nobre amigo. O que faço agora?

- Haha, esse é o espírito... Esse é o espírito. Só vai até a Júlio Prestes e você vai saber o que fazer. - ele me dá uma piscadela.

- Obrigada. - sorrio acanhada. - Tenha um bom dia.

Agora tenho que ir pra estação Julio Prestes e vou saber o que fazer. Mas, mesmo assim, a caminhada é boa. Vamos a luta.

Só virar aqui e já vou poder ver a estação...

O que tá acontecendo ali? Uma manifestação. Nossa! Adoro essas noticias espontâneas. Ainda bem que sempre carrego um bloquinho comigo. Pegar umas informações e publicar no blog pelo menos.

- Moço, moço! Qual o motivo dessa manifestação. - Já corri pra pegar a informação.

- Pra chamar sua atenção! - ele virou pra multidão e gritando - Ela veio galera! Ela está aqui!

Qual a razão eu não sei, mas tenho a impressão que estou prestes a descobri...

- NOSSA EQUIPE DA EDITORA TE DÁ AS BOAS VINDAS!!!

Equipe da editora? Que editora? Aí eu olho pro fundo da multidão. Meu recente entrevistador vem na minha direção.

- Bom, primeiro me desculpe, mas precisamos de uma entrevista mais prática e fora dos padrões. Logo de manhã te dispensei pra poder ver como você agiria sobre pressão ou qualquer distúrbio de humor. E, bom, você se saiu muito bem. Te damos as boas vindas. Pode começar amanhã?

Que engenhoso! Uma entrevista mais do que dinâmica. E agora toda a trama da história se forma em minha mente. E aqui vai o que posso dizer: QUE DEMAIS! Esse é o melhor dia dos namorados da minha vida!